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Discurso de Posse de Euclides da Cunha na ABL
 

Discurso de Posse de Euclides da Cunha na Academia Brasileira de Letras, cadeira nº 7 (18  de dezembro de 1906)

Há dois anos entrei pela primeira vez naquele estuário do Pará, "que já é rio e ainda é oceano", tão ineridos estes fácies geográficos se mostram à entrada da Amazônia.

Mas contra o que esperava não me surpreendi...

Afinal, o que prefigurara grande era um diminutivo: o diminutivo do mar, sem o pitoresco da onda e sem os mistérios da profundura. Uma superfície líquida, barrenta e lisa, indefinidamente desatada para o norte e para o sul, entre duas fitas de terrenos rasados, por igual indefinidos, sem uma ondulação ligeira onde descansar a vista. De permeio baixios indecisos, varridos das maretas, mal desenhando-se grosseiramente à tona, à maneria de caricaturas de ilhas; ou ilhas rasas, meio sorvidas pelas marés, encharcadas de brejos – uma espécie de naufrágio da terra, que se afunda e braceja convulsivamente nos esgalhos retorcidos dos mangues... Por cima os céus, resplandescentes e vazios, recortando-se no círculo  perfeito dos horizontes como um pleno Atlântico. Nada mais.

Calei um desapontamento; e no obstinado propósito de achar tudo aquilo prodigioso, de sentir o másculo lirismo de Frederico Hartt ou as impressões “gloriosas” de Walter Bates, retraí-me a um recanto do convés e alinhei nas fôlhas da carteira os mais peregrinos adjetivos, os mais roçagantes substantivos e refulgentes verbos com que me acudiu um caprichoso vocabulário... para ao cabo desse esforço rasgar as páginas inúteis onde alguns períodos muito sonoros bolhavam, empolando-se, inexpressivos e vazios.

Desci para um escaler. Saltei em Belém. E a breve trecho achei-me naquele Museu do Pará, onde se sumariam as maravilhas amazônicas

Lá encontrei dois homens: Emílio Goeldi, que é um neto espiritual de Humbolt, e o Dr. Jacques Huber, menos conhecido, botânico notabilíssimo, bem que nada nos recorde dessas figuras oleográficas de sábio saxônico, de faces engelhadas e ralas farripas melancólicas.

É um espírito sutilíssimo servido por um organismo de atleta, entroncado e maciço: vir quadratus, como deve ser o naturalista, porque as ciências naturais  exigem hoje uma sorte de titães pensadores, em que os músculos cresçam com o cérebro, por maneira que a inervação vibrátil e poderosa se justaponha a uma compleição inteiriça e resistente feita para as rudes batidas no deserto. Aquele sábio resolve um passeio de seiscentas léguas, de Belém às margens do Ucaiale, em menos tempo que qualquer de nós uma viagem até a Gávea.

Atravessei a seu lado duas horas inolvidáveis- e ao tornar para bordo levei uma monografia onde ele estuda a região que me parecera tão desnuda e monótona.

Deletrei-a a noite tôda; e na antemanhã do outro dia – um daqueles glorious days de que nos fala Bates, subi para o convés de onde, com olhos ardidos de insônia, vi, pela primeira vez, o Amazonas...

Salteou-me, afinal, a comoção que eu não sentira. A própria superfície lisa e barrenta era mui outra. Porque o que se me abria às vistas desatadas naquele excesso de céus por cima de um excesso de águas, lembrava (ainda incompleta e escrevendo-se maravilhosamente) uma página inédita e contemporânea do Gênesis.

Compreendi o ingênuo anelo de Cristóvão da Cunha: o grande rio devera nascer no Paraíso.

Atentei outra vez nos baixios indecisos, nas ilhas ou pré-ilhas meio diluídas nas marejadas – e vi a gestação de um mundo. O que se me afigurara um bracejo angustioso era um arranco de triunfo. Era a flor salvando a terra numa luta onde vislumbra uma inteligência singular: aqui, enfileirando as aningas de fôlhas rijas, rebrilhantes e agudas à feição de lanças, em estacadas unidas para o combate das águas; além, estendendo diante das correntezas refertas de sedimentos os retiários e os filtros das carananas e dos aturizais; por tôda a banda, alongando e retorcendo os tentáculos flexíveis dos mangues em urdiduras inextricáveis, em cujas malhas infinitas o lôdo quase diluído vai transmudando-se em solo resistente; inventando depois a anomalia dos arbustos-cipós e ajustando sôbre tudo aquilo os longos traços de união dos galhos estirados das apuiranas e dos juquiris – até acravar-se no primeiro firme, que se vai construindo um alto maritizeiro, abrindo no azul os seus enormes leques sussurantes e prenunciando a floresta ou vem logo após, impressionadora e majestosa, destruindo de repente tôda a monotonia daquela imensidade nivelada com as frondes das samaúnas, altas e redondas, a ondearem nos sem-fins das paisagens como se fôssem colinas...

Compreendi os mesmos céus resplandencentes e limpos: e que a terra tôda surge à flor das águas e emerge  mais e mais, crescendo na ascenção da seiva das florestas atraídas vigorosamente pelas energias incomenduráveis da luz.

Prossegui a viagem sob um nôvo encanto, mas com uma preocupação desanimadora.

Com efeito, a nova impressão, verdadeiramente artística, que eu levava, não ma tinham inspirado os períodos de um estilista.

O poeta que a sugerira não tinha metro, nem rimas: a eloqüência e o brilho dava-lhos o só mostrar algumas aparências novas que o rodeavam, escrevendo cândidamente a verdade. O que eu, filho da terra perdidamente namorado dela, não conseguira, demasiando-me no escolher vocábulos, fizera-o usando um idioma estranho gravado do áspero dos dizeres técnicos. Avaliei então quanto é difícil uma cousa trivialíssima nestes tempos, em que os livros estão atulhando a terra, escrever...

E aquela preocupação, meus eminentes confrades, é a mesma que me constrange no momento de ocupar a cadeira que solicitei e a vossa bondade me emprestou. Não sendo esta investidura uma consagração, mas um tácito compromisso de altear-me por outros trabalhos até à vossa nobilitadora simpatia, imaginai os meus desalentos diante de uma tal emprêsa.

O caso que vos citei é expressivo. Delata que me desviei sobremodo dessa literatura imaginosa, de ficções, onde desde cedo se exercita e se revigora o nosso subjetivismo, tão imperioso por vêzes que faz o escritor um minúsculo epítome do universo, capaz de o interpretar a priori, como se tudo quanto êle ignora fôsse apenas uma parte ainda não vista de si mesmo.

Escritor por acidente – eu habituei-me a andar terra a terra, abreviando o espírito à contemplação dos fatos de ordem física adstritos às leis mais simples e gerais; e como é nesta ordem de fenômenos que se aferem, mais de pronto, as transformações contínuas da nosa inteligência, vai-se tornando mais e mais difícil êsse abranger os caracteres preexcelentes das cousas, buscando-lhes as relações mais altas e formadoras das impressões artísticas, ou das sínteses estéticas.

Realmente, ao contrário do que se acredita, no terreno maciço das indagações objetivas, ao rés das experiências, há uma crescente instabilidade. O poeta, o sonhador em geral, quem quer que se afeiçoe a explicar a vida por um método exclusivamente dedutivo, é soberano no pequeno reino onde o entroniza a sua fantasia. Nós, não.  Os rumos para o ideal baralha-no-los o próprio crescer do domínio sôbre a realidade, como se à hierarquia lógica dos conhecimentos positivos acompanhassem, justalinearmente, as nossas emoções sempre mais complexas e menos exprimíveis. Sobretudo menos exprimíveis. No submeter a fantasia ao plano geral da natureza, iludem-se os que nos supõem cada vez mais triunfantes e aptos a resumir tudo o que vemos no rigorismo impecável de algumas fórmulas incisivas e sêcas. Somos cada vez mais frágeis e perturbados. No perpétuo desequilíbrio entre o que imaginamos e o que existe, verificamos, atônitos, que a idealização mais afogueada apagam-no-la os novos quadros da existência. Mesmo no recesso das mais indutivas noções, não é fácil saber, hoje, onde acaba o racionalismo e principia o misticismo – quando a própria matéria parece espiritualizar-se no radium, e o concreto desfecha no translúcido e no intáctil; ou entram, improvisadamente, pelos laboratórios, renascidas, as quimeras trancendentais dos alquimistas... Assim,, “diante da realidade crescente – consoante o dizer do menos sonhador dos homens, Rumford – o nosso espírito está em contato com um maravilhoso que faz empalidecer  o de Milton. Imaginai uns tristes poetas pelo avêsso; arrebata-nos também o sonho, mas, ao invés, de projetarmos a centelha criadora do gênio sôbre o mundo que nos rodeia, é o resplendor dêste mundo que nos invade e deslumbra”.

Avaliai, portanto, os meus embaraços ao ocupar a cadeira de Castro Alves. Estou, mais uma vez, ante uma grandeza que à primeira vista não admiro, porque não a compreendo. O que diviso dúbio e incaracterístico: certo, um grande lírico, entre os maiores engenhados pela nossa ardente afetividade, mas como tantos outros que aí andam, dobrando os joelhos diante de tôdas as virtudes e aformoseando todos os pecados. Recito-lhe os versos; e o breve trecho, sobretudo se insisto na maneira que tanto o estrema dos demais cantores, o meu espírito fatiga-se, sem essa intensa afinidade de estímulos que forma o parentesco virtual entre o pensador e os que o lêem. Por fim, quedo-me atônito ante uma espécie de Carlyle da rima – extravagante, genial, rebelde – que nos abala poderosamente em cada verso, mas cuja ação é infinitamente breve, como a de uma pancada percutindo e morrendo ao fim dos hemistíquios. Fascinado pelo fulgor de sua idealização exagerada, assisto ao abstruso de uma mascarada indescritível, onde se misturam, emparceirando-se nas mesmas farândolas tumultuárias, reis decaídos, pontífices em apuros, heróis “que tropeçam na eternidade”, mártires a entrarem, trôpegos e aos cambaleios, pela história dentro, “estatuários de colossos”, e caboclos nus, espantados... Aqui, “as cortinas do infinito” descerradas à perspectiva de novos continentes; além, a cordilheira de píncaros fantásticos que, “como braços alevantados, apontam para a amplidão”; mais longe, dentre um fragor de rimas clangorosas,

Os oceanos em  tropa, e a imaginativa esgota-se acompanhando o desmedido de um arrancao vôo de leviatãs alados, que passam, imprimindo nos cenários o trágico pré-esquiliano das remotas idades geológicas... Tudo isto a tumultuar entre as fronteiras da geografia romântica de um mundo todo errado, que durante algum tempo teve o pólo norte em Jersey e o pólo sul em Santa Helena.

O infinito acode submisso ao reclamo das rimas imperativas, e Deus – um Deus democrata e meio voltairiano – associa-se  de boa sombra àquele desvairado panteísmo, e desce a tôda hora das alturas, assumindo a chefia dos povos, ou bradando com ingênuo entusiasmo: marchar...

Ora, ante estas coisas imponentes e fragílimas, tornam-se à primeira vista opináveis o renome e o valor de tão incorrigível fabricante de quimeras. Hoje as suas criações singulares sobressalteiam, não comovem. Reconhecemo-nos do melhor grado incapazes de fazê-las, consolando-nos com o reconhecer que não precisamos realizá-las e que, se as fizéssemos, teríamos feito muito pouco.

Mas êste conceito é, evidentemente, precipitado e falso... Diante destas grandezas morais, como diante das grandezas físicas, a nossa admiração tem ainda muito do espanto inexpressivo dos selvagens. Castro Alves, como outros representantes naturais da nossa raça, é ainda um incompreendido – porque assim como não temos uma ciência completa da própria base física da nossa nacionalidade, não temos ainda uma história. Não aventuro um paradoxo. Temos anais, como chineses. A nossa história, reduzida aos múltiplos sucessos da existência político-administrativa, falta inteiramente a pintura sugestiva dos homens e das cousas, ou os travamentos de relações e costumes que são a imprimidura indispensável ao desenho dos acontecimentos. Está como a da França antes de Thierry. Não lhe escasseiam fatos, episódios empolgantes e alguns atores esculturais que embalem o nosso orgulho.

Mas o seu discurso é obscuro – e desdobra-se tão mecânicamente e sobremaneira monótono que nos não permite ouvir, através do estilo incolor dos que a escreveram, a longínqua voz de um passado que entre nós falou três línguas. É talvez certa, torturantemente certa,  no fixar não sei quantas datas e lugares, ou compridos nomes de bispos e governadores, mas fala-nos tanto da alma brasileira como a topografia nos fala das paisagens. Lendo-a e relendo-a, acode-me sempre o pensamento de Macaulay no demarcar nesta esfera literária um domínio comum da fantasia e da razão, destinado aos eleitos que sejam ao mesmo passo filósofos e poetas; - porque, se tivemos um Pôrto-Seguro e um Roberto Southey para relacionarem causas  e efeitos e respigarem nos velhos acontecimentos algumas regras de sabedoria política, certo  ainda não tivemos um Domingos Sarmiento ou um Herculano que nos abreviasse a distância do passado e, num evocar surpreendente, trouxesse aos nossos dias os nossos maiores com os seus caracteres dominantes, fazendo-nos compartir um pouco as suas existências imortais...

Se tal acontecesse, eu não me demoraria tanto diante da memória sagrada do poeta.

Recordaria, apenas, de relance, a mais nobre das nossas lutas: a campanha abolicionista, que vindo do princípio ao fim do século XIX, da ditadura mansa de D.João VI aos últimos dias do Império, de Hipólito da Costa a Joaquim Nabuco, foi a “guerra dos cem anos” da liberdade civil neste país. E considerando-a, se não na sua fase mais decisiva, no seu período mais brilhante, em que tanto a aviventaram as mais ardentes emoções estéticas, eu não me afadigaria em alinhar tantas fases inexpressivas.

Recitaria as “Vozes d`África”...

Então o que nos afigura um quimerizar adoidado resultaria lógico; e naquelas visões radiosas veríamos os reflexos de um ideal, aparecendo na esplêndida desordem de inesperado triunfo depois de longo seqüestro pelos desvãos mais obscurecidos do passado. E assentaríamos aquela palavra, onde havia as esperanças de uma raça titânica, que durante trezentos anos trouxe ao colo a nossa nacionalidade criança, graças à cândida afetividade selvagem que lhe modificara os ímpetos da revolta –aquela palavra para ser artística, para ser a expressão vibrante de uma realidade dolorosa, para ser sincera e, portanto, simpática, senhoreando os corações e irmanando-os solidários e unidos diante do destino e da vida, devia ser o que foi, nas suas cruezas, nos seus lances ensofregados, nos seus atrevimentos, nas suas rebeldias, nas suas obscuridades cindidas de repentinos resplendores, no fragor de suas sílabas agitadas a zinirem, a estourarem, a crepitarem e a retinirem como ressonâncias de batalhas, no vulcanismo de suas imagens rútilas e adustivas, nos estiramentos de suas hipérboles, nas transfigurações de suas metáforas, no bíblico formidável de suas apóstrofes, no simbolismo maravilhoso de suas alegorias, no entrechocar-se  de suas antíteses sucessivas – e até naquele abuso imoderado do infinito, onde se denuncia a tendência a universalizar-se do poeta.

A êste propósito acode-me um pensamento de Littré: “Se a Ilíada com tôda a sua mirífica poesia aparecesse perfilhada pela arte do nosso tempo, seria informe pueril.” Por outro lado, Dante se vivesse dois séculos antes desapareceria entre os trovadores anônimos: Shakespeare no século XVI seria um fazedor de “Mistérios” – e nestes dias não escreveria Macbeth,  escreveria os Espectros, assinando-se Ibsen...

Se se explicam êstes gênios estranhos à luz do princípio geral da relatividade, por que não o aplicar também ao grande poeta ?

De mim não o justifico apenas. Admiro-o. Qualquer que seja  a nossa altitude vindoura, teremos sempre nas quarenta páginas do Manuscrito do Estênio os estímulos mais nobres do passado.

Elas estão para o nosso destino como as singulares  Canções da Espada, de Th. Koerner, e os singularíssimos Sonetos Couraçados, de Fred. Rückert, para os triunfos imponentes da Alemanha. Certo, não deleitam mais, e não há aí miopia intectual que não lhes veja defeitos. Passaram. Mas ligaram para sempre, sob a inspiração de uma bondade varonil, os melhores aspectos do nosso heroísmo aos aspectos mais encantadores de nossa fôrça.

Castro Alves foi dos nossos últimos românticos. Despois dêle, em todo o período que vem de 1875 até hoje, temos mudado muito e vamos mudando ainda, sem que se note uma situação parada, das que se fazem ao menos para se avaliar quanto se andou.

É natural. Realizamos duas emprêsas a que nos impeliam as nossas tradições, e vamos agora arrebatados nas correntes novas que delas se derivaram. Mas, infelizmente, a par destas energias próprias, tivemo-las estranhas. O qüinqüênio de 1875-1880 é o da nossa investidura um tanto temporã na filosofia contemporânea,  com seus vários matizes, do positivismo ortodoxo ao evolucionismo no sentido mais amplo, e com as várias modalidades artísticas, decorrentes, nascidas de idéias e sentimentos elaborados fora e muito longe de nós.

A nossa gente, que bem ou mal ia seguindo com os seus caracteres mais ou menos fixos, entrou, de golpe, num suntuoso parasitismo. Começamos a aprender de cor a civilização: cousas novas, bizarras, originais, chegando, cativando-nos, desnorteando-nos, e enriquecendo-nos de graça. A inteligência brasileira sentia a ventura radiosa da Cendrillon ponpeando o fausto gratuito de uma fantasmagoria simpática. Diante de novos descortinos mais amplos, partiu a cadeia tradicionalista que se dilatara até aquêle tempo com Alencar e Pôrto Alegre, e atirou-se para a frente  quase envergonhada da sua situação anterior, que entrou a desquerer, repulsando os seus melhores nomes, e sugerindo um protesto tranqüilo, lavado de elegante ironia, de alguém que teve o ensejo de a ver naquele momento e de acompanhá-la até hoje, até o instante em que vos falo. Sem alentados dizeres, o mestre, que hoje nos preside e guia, apontou então, sorrindo, os perigos de uma avançada sem bandeiras, à semelhança de uma fuga.

Pelo menos tudo aquilo era ilógico. O espírito nacional reconstruía-se pelas cimalhas, arriscando-se a ficar nos andaimes altíssimos, luxuosamente armados. Os novos princípios que chegavam não tinham o abrigo de uma cultura e ficavam no ar, inúteis, como fôrças admiráveis, mas sem pontos de apoio; e tornaram-se frases decorativas sem sentido, ou capazes de todos os sentidos; e reduziram-se a fórmulas irritantes de uma caturrice doutrinária inaturável; e acabaram fazendo-se palavras, meras palavras, rijas, sêcas, desfibradas, disfarçando a pobreza com a vestimenta dos mais pretenciosos maiúsculos do alfabeto.

Houve então o soleníssimo préstito do Determinismo, da Evolução, do Inconsciente, do Incognoscível, em que se amuletavam, intrusas, algumas  velhas carpideiras do romantismo: a Justiça, a Escola e a Liberdade...

Assim, não maravilha que a nova geração, do avançar aforrado, não soubesse, afinal, para onde seguir.

Apenas um exíguo grupo se destacou: arregimentou-se em tôrno de um filósofo; e afastou-se. Ninguém mais o viu – e mal se sabe que êle ainda existe, reduzido a dois homens admiráveis, que falam às vêzes, mas que não se ouvem, de tão longe lhes vem a voz, tão longe êles ficaram no território ideal de uma utopia, no dualismo da positividade e do sonho...

O resto ficou numa fronteira indecisa a tatear dentro de uma miragem que, à alta de melhor nome, se chamou durante muito tempo a Idéia Nova. Que era a Idéia Nova  ? Eu poderia responder-vos que era uma cousa muito velha, uma curiosa infantilidade de cabelos brancos, ou uma novidade de cem anos – mas prefiro a palavra  de um poeta do tempo.

Escutemo-lo:

Está deserto o céu. No grande isolamento,
Palpita ensangüentado o sol – um coração...
Mas os deuses de Homero, o Jeová sangrento,
Alá e Jesus Cristo, os deuses onde estão?
Morreram. Era tempo. Agora encra a terra:
Ressoa alegre a forja e sai da Escola um hino.
O gênio enterra o mal em uma negra cova.

Deus habita a consciência. O coração descerra
Aos ósculos do Bem o cálix purpurino.
Vem perto a Liberdade. É isto a Idéia Nova.

Os versos são de 1879 e o poeta, à volta dos vinte anos, chamava-se Antônio Valentim da Costa Magalhães.

Nascido em 1859 nesta capital – aquela data e êste lugar são elementos dignos de nota na sua formação.

Já se tem feito um confronto instrutivo dos nossos escritores do Norte e do Sul. Talvez fôsse mais útil defrontar os que se formam na orla litorânea sob a luz vàriamente refletida da cultura européia com os que passam as primeiras quadras no remanso das gentes sertanejas, mais em contato com o gênio obscuro das nossas raças. Neste ponto o regimen moral do Brasil reproduz a sua inegável anomalia climática: varia mais em longitude do que em latitude. Mas não me alongarei por aí. Notarei apenas que os primeiros quinze anos de Valentim Magalhães coincidem com uma fase de profundas mudanças da nossa existência política. De 1860, ao levantar-se o preamar democrático, simbolizado em Teófilo Ottoni e rugindo na “Mentira de Bronze” de Pedro Luís, a 1870 e 1875, quando a monarquia perdeu, uma após outra, as muletas da aristocracia terriorial, e da Igreja – foi tão intensiva a decomposição do antigo regímen que o simples enfeixar as frases acerbas dos maiores chefes de seus partidos é uma missão de Tácito, e não se compreende que se perdesse tanto tempo para realizar-se o passeio marcial de 15 de novembro de 1889.

Assim a juventude do escritor aparelhava-se para a vida quando em tôrno a sociedade se alterava, apercebendo-se de novos elementos para existir; e isto precisamente no cenário mais revôlto de uma tal metamorfose.

A geração de que êle foi a figura mais representativa, devia ser o que foi: fecunda, inquieta, brilhantemente anárquica, tonteando no desequilíbrio de um progresso mental precipitado a destoar de um estado emocional que não poderia mudar com a mesma rapidez; e a sua vida, a sua carreira literária vertiginosa, tôda disposta a nobilíssimas tentativas reduzidas a belíssimos preâmbulos, a nossa própria vida literária, impaciente e oidejante, brilhando fugazmente à superfície das cousas, inapta às análises fecundas pelo muito ofuscar-se com as lantejoulas das generalizações precipitadas.

Nada sei, infelizmente, dos primeiros tempos em que a sua educação se delineou.

E 1877, contando apenas dezoito anos, matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo – e daí por diante, sem um hiato, encadearam-se-lhe os dias numa atividade pasmosa.

Assim é que para logo colaborou em três periódicos acadêmicos, a Revista de Direito e Letras, o Labarum, onde fulgia o esplêndido humorismo de Eduardo Prado, e a República, onde Lúcio de Mendonça açacalava as suas rimas golpeantes.

Noviciando nas letras, Valentim revelou de pronto uma jovialidade desbordante, que foi o traço mais duradouro da sua móvel fisionomia literária, e uma aptidão rara para o jornalismo, que a breve trecho, em 1878, o tornou aturado colaborador dos melhores jornais do Rio e São Paulo. Em 1879 já era autor de três opúsculos, Idéias de Môço, Grito na Terra e General Osório, escrito a duas penas com Silva Jardim, e de um livro de versos Cantos e Lutas, onde lhe germinou o renome.

Precipito, acinte, as datas e os livros. É o melhor comentário à sua carreira.

Em 1880, ainda estudante, desposou a nobilíssima senhora, que tanto lhe aformoseou a vida, e, mau grado os novos deveres adquiridos, escreveu apaixonadamente para a Evolução, dirigida por Júlio de Castilhos e Assis Brasil, continuando a colaborar na Gazeta, onde imprimiu “Colombo e Nené”, o seu conhecido poemeto.

Fundou a Comédia em 1881; traçou-lhe transcorridos três meses, o gracioso epitáfio – e foi redigir o Entreato, com Eduardo Prado, e o Boêmio, com Raimundo Correia.

Formou-se. Destacara-se notàvelmente granjeando invejável nomeada entre companheiros que se chamavam Júlio de Castilhos, Silva Jardim, Barros Cassal, Teófilo Dias, Eduardo Prado, Ezequiel Freire, Raul Pompéia, Randolfo Fabrino, Lúcio de Mendonça, Assis Brasil, Afonso Celso, Fontoura Xavier, Augusto de Lima, Alcides Lima,  Alberto Sales, Pedro Lessa, Luís Murat, Júlio de Mesquita, Raimundo Correia. Cito ao acaso, esquecendo outros cômpares no merecimento, apenas para notar que ainda não se congregaram sob os tetos de uma escola tantas esperanças e tão discordes temperamentos – da severa formação política de Castilhos ao evangelho revolucionário de Silva Jardim, da rudeza republicana e Barros Cassal ao monarquismo elegante de Eduardo Prado, ou da melancolia impressionadora de Teófilo Dias ao gracioso humorismo de Ezequiel Freire.

Ora, Valentim foi a figura representativa no meio de tão díspares tendências, por isto mesmo que lhe faltou sempre uma diretriz à atividade dispersiva. As condições do meio e a sua índole arrastaram-no demasiado à vida exterior e para a sua infinita instabilidade.

Depois de formado persistiu a aceleração de sua carreira, dissipando em fôrça o que adquiria em movimento.

Em 1882 publicou os Quadros e Contos, livro prometedor, onde refulgem páginas descritivas de excepcional colorido, avivadas tôdas daquela galanteria do escrever, que raro o abandona – e que se acaso o abandona é para tornar maior. Realmente, joeirando-se todos os seus versos escritos em 1883, talvez nos restassem apenas três sonetos; mas estas 42 linhas perduram nas nossas letras como a expressão mais eloqüente de uma saudade do mesmo passo excruciante e encantadora na sua tocante singeleza. Falecera-lhe o pai extremosíssimo, e Valentim, que até então escrevera para tôda a parte, num insofregado anelo da consideração coletiva, - surpreendido pela desdita, confiou, chorando, à alma da sua espôsa, aquêle poema de duas páginas “O nosso morto”, que não preciso recitar-vos, tão vivo êle perdura na vossa memória.

Mas estas transfigurações eram-lhe instantâneas.

Naquele mesmo ano desencadeou na Gazeta de Notícias a sua mais viva campanha de franco-atirador do espírito.

Revelai-me o desgracioso do simile: as Notas à Margem recordam uma escaramuça agitadíssima, estonteadora, sem rumos, à caça do imprevisto, onde não há triunfos nem reveses, e os recontros e os adversários se travam e se distinguem fugitivos, a relanços e aos resvalos, de um reconhecimento armado que não pára... Porém, o que ali falta no compasso das idéias, sobra na propriedade do dizer e num desvelado apuro de linguagem, que influíram consideràvelmente em nosso meio. Muita gente, entre nós, começou a escrever melhor, sob as reprimendas gráceis daquele infatigável caçador de solecismos e persistente fiscal de pronomes insubordinados. Ao mesmo passo na imprensa diária acentuou-se melhor esta forma literária facílima, que é o artigo do jornal, onde a medida e a intensidade das idéias têm de ceder, não já  aos dúbios contornos, capazes de ajustá-las ao maior número possível de critérios, nos limites de uma enção de quartos de hora, senão também à fluidez de expressão, que lhes permita insinuarem-se nas nossas preocupações, encantando-nos um momento – e passando sem deixarem traços.

Continuemos a resenha.

Em 1884 trasladou ao português, com Filinto de Almeida, El Gran Galeoto, de Echegaray – e esta tradução, com as suas rimas e variedade métrica, avantaja-se ao original castelhano, onde o drama deriva na cadência única e intolerável dos versos brancos, em redondilha menor.

Fundou em 1885 A Semana  e êste periódico, estritamente literário, fêz a maravilha, nesta terra e naquele tempo, de durar três anos. Mas para isto, à parte um concurso notável, em que se extremavam, para citar sòmente os mortos, Urbano Duarte, Raul Pompéia, Alfredo Sousa e Luís Rosa – despendeu o melhor da sua atividade e quanto lhe adviera da herança paterna. Mas não vacilou ante a ruína. Iludia-se quem lhe medisse a fortaleza pela volubilidade. Era um caráter varonil blindado de uma jovialidade heróica.Tinha êsse recato do sofrimento que é a única expressão simpática do orgulho. Os seus melhores amigos jamais lhe divisaram desânimos.

O revés não o desinfluiu. Escreveu em 1886 os Vinte Contos; em 1887, Horas Alegres; publicou, refundidas, em 1888, as Notas à Margem; em 1889, Escritores e Escritos... Vêde: não há a solução mais breve no duodecênio que percorremos. Não se pula uma data sem pular-se um livro. O escritor violou doze vêzes seguidas o nonum primatur in anno...

De 1889 a 1895 houve aparente descanso. A República, feita numa madrugada, criara a ilusão de grandes cousas feitas da noite para o dia. Valentim, como todos, vacilou na vertigem geral. Ordinàriamente se acredita que o empolgasse o anseio da fortuna fácil, naquela quadra que a ironia popular ferreteou com o nome de “encilhamento”. Com efeito, salvante alguns artigos esporádicos, o incansável homem de letras parecia mudado num infatigável homem de negócios. E fundou – como tôda a gente – uma companhia.

Mas considerai como sonhador desdenhou as voltas retorcidas dos cifrões e alinhou parcelas como se alinhasse versos; aquela “Educadora”, que se transformou depois de uma vulgar companhia de seguros, era uma fantasia comercial. Não segurava vidas, segurava inteligências; e o segurado, ao invés de um ajuste sinistro com a morte, a trôco de alguns contos de réis, garantia a educação dos filhos.

O devaneio mercantil não vingou. Valentim reavivou-se: e no qüinqüênio de 1895-1900 continuou a marcar os anos pelos livros e opúsculos: em 95, Filosofia de Algibeira; Bric-à-Brac, em 96; em 97, o seu primeiro romance, Flor de Sangue;  Alma e Rimário, em 98-99 – deixando prontos quatro outros: Fora da Pátria, Na Brecha, Novos Contos e Outono, que lhe demarcariam, na mesma progressão, os quatro últimos anos de existência...

Uma herança de tal porte não se inventaria num discurso.

Vou agitar alguns conceitos falíveis. Revendo êstes volumes, o que para logo se põe de manifesto é uma falta de unidade pasmosa.

O escritor muda no volver das páginas.

Nos  Cantos e Lutas, escuta-se, ao toar solene dos alexandrinos, o lirismo humanista que Pedro Luís divulgara desde 62; e quem quer que admita a ficção das escolas literárias, estuda-o à luz do critério sociológico de Guyau.

De feito, a inspiração não lha diluem lágrimas: é robusta, impessoal, refulgente – e a sua

...grande musa austera e sacossanta,
que para o céu azul os olhos alevanta
banhados no fulgor virgíneo da verdade,

era  sem dúvida sincera. Mas esta linguagem,

cantando hercúleamente as odes imortais.

nunca mais se repetiu. Ao contrário, a poesia filosófica (e falo assim por obedecer à moda, porque uma tal poesia se me afigura tão absurda quanto uma geometria lírica ou a astronomia romanceada de Flammarion), a poesia “social”, em que tanto importa o subordinar-se a expressão à verdade, teve depois em Valentim um irriquieto adversário.

Nos Escritores e  Escritos desponta-lhe o antagonismo em dizeres concisos, golpeantes:

Em literatura a forma é quase tudo. Especialmente em poesia.
É preciso ter como Teodoro de Banville o sentimento das palavras...
A Forma! Eis o grande, o milagroso talismã! Quem o possui aravessa a vida sem conhecer impossíveis aos caprichos do seu gênio.

A “forma” lá está com F maiúsculo. É o fetichismo do vocábulo. Com efeito, poucas vêzes na língua portuguêsa a palavra foi tão voluntariosa no violentar  idéias, transfigurando-as ou emparelhando-as nas mais bizarras antíteses.

Falando-nos de Junqueiro, por exemplo, diz-nos Valentim em menos de uma página:

A gargalhada de Junqueiro tem a altissonância trágica de Shakespeare e o assobio implacável de Gravoche: é a voz potente de Victor Hugo estridulando com as casquinadas de Aretino. É Voltaire arremangado, dedos na bôca, assobiando à Tiara, às batinas e aos solidéus... É o Ésquilo da troça. Hamleto rufando com as tíbias de Iorik na pança congesta de Tartufo...

Atalhemos – porque vai por diante êste ajuntamento ilícito de verbos, substantivos e adjetivos, que se vêem juntos pela primeira vez e vivamente se repulsam.

Mais expressiva é aquela admiração delirante. Valentim Magalhães era excepcionalmente afetivo. Tudo lhe denuncia um nobre espírito impropriado a agir sem os estímulos de uma ardente simpatia, vinculando-o às outras almas.

Esta literatura associada que, em geral, a exemplo dos Goncourts, exige a base da consanguinidade, êle a praticou como nenhum outro, reunindo um irmão legítimo, Henrique Magalhães ( com quem escreveu uma paródia à Morte de D. João ), a Silva Jardim, a Filinto de Almeida e Alfredo  Sousa, nos laços da mesma fraternidade. Não lhe conheço um livro sem uma dedicatória. São raríssimos os seus escritos dispersos, cujos títulos não tenham logo abaixo um parêntesis guardando o nome de um amigo. A admiração, que é o sintoma mais lisonjeiro de um caráter, rompia-lhe sempre num enorme exagêro.Admirou daquele jeito Guerra Junqueiro; admirou C. Castelo Branco, “polígrafo indefesso, formidável, único”; admirou Ramalho Ortigão, “um mestre, senhor de tôdas as verdades do mundo moderno...”; admirou Machado de Assis,

êsse que arranca aos rígidos vocábulos
a música rebelde e fugidia...

Admirou os seus próprios companheiros. Sendo preeminente na “nova geração”, não desdenhou fazer-se o garboso mestre-sala, para apresentá-la ao país. E o país conheceu-a, em grande parte, através da sua palavra carinhosa.. Não preciso exemplificar. No círculo daquela afabilidade irradiante e avassaladora caíram os que chegavam pouco depois, desde Coelho Neto, Medeiros e Albuquerque e Olavo Bilac até aos mais obscuros escrevedores da província. A alguns cantou em verso, desde Carvalho Júnior, desaparecido tão moço e a quem conhecemos apenas

Como um “meinsinger” loiro, alegre e extravagante,
até alguém que não preciso nomear, tão conhecido nosso é o

...que esculpido
Tem sonhos, dores, alegrias.
E é príncipe do Reino Unido
Das Harmonias.
Mas esta afetividade dissipava-lhe o espírito. O seu pendor para o artigo ligeiro é expressivo; é a tendência dos que vêem tudo de relance, na ânsia de tudo ver. Relendo os Vinte Contos, lastimamos que o escritor nunca se demorasse num assunto.

A “Feira dos Escravos”, para citar só um caso, na sua urdidura, onde resplandece um desafogado estilo descritivo, e no seu desenlace empolgante, é o lance, inexplicàvelmente  abandonado, de um belo romance de costumes.

Não consoavam, porém, a vibratibilidade de Valentim Magalhães e o intricado episodiar das longas narrativas.

Demonstra-no-lo a Flor de Sangue.  Nada direi do livro malogrado, onde, entretanto, um velho tema se remoça com uma cativante originalidade de desfecho. Considero apenas que a crítica desaçamada, que o estraçoou  até à errata final, não disse mais do que o próprio romancista, no prefácio:

O capítulo que primeiro escrevi na intenção de fazê-lo o primeiro do livro, foi o quinto da segunda parte; eu havia principiado pelo fim!

Constantemente traído pelas melhores qualidades morais, anelando envolver na mesma carinhosa simpatia homens e cousas, todo o seu grande talento se diluía espalhado pelos aspectos inumeráveis da vida.

Resumo o meu juízo: tôda a obra literária de Valentim Magalhães  pode ter o título único de um dos seus livros – Bric-à-Brac . E a êste propósito  ouçamo-lo  na esplêndida volubilidade de seu estilo diserto, referindo-se àquele livro sem cuidar que fazia tôda a sua psicologia literária:

...Pois esta obra é isto mesmo; é um amontoado de curiosidades literárias, e objetos de arte escrita...Junto a um conto comovido e sincero, um trecho da sátira mordaz e irreverente; em seguida depois de um surto amplo de antasia caprichosa, um quadro exato e minucioso da vida social – Bric-à-Brac. De manhã à noite, em um só dia, o homem percorre tôda a gama sentimental – eternece-se e lacrimeja; encoleriza-se e ruge; alegra-se e ri; enfara-se e boceja; enamora-se e canta; indigna-se e satiriza...

Não prossigamos. Nestas palavras sinceras só há um dizer destoante: aquêle encoleriza-se e ruge. A linha acentuada do caráter de Valentim ia de uma alevantada altivez a uma robusta alacridade que o forrava aos rancôres – embora do ódio, que é muitas vêzes a forma heróica da bondade.

Mas êste nunca lhe repontou nas polêmicas acirradas que travou e o mais caeso das quais lhe refulgia a graça amortecendo ou falseando os mais violentos golpes.

Nos últimos tempos apareceram-lhe adversários a granel. Não houve aí grande homem engatinhando, ou imenso talento inédito, que se não malestreasse argüindo-o em hílares reprimendas, adoràvelmente papagueadas, de numerosos defeitos laivando-lhe o renome e desgabando-lhe os livros. Não lhes deu o prêmio de um revide. Soube apenas que existiam, indecisos, amorfos, difusos, diluindo-se e apagando-se por si mesmos, - uma espumarada fervilhante, aflorando e morrendo na esteira a sua rota impetuosa.

E retorquiu, algures, sorrindo:

A princípio fui gênio; mais tarde cousa nenhuma. Hoje César, amanhã João Fernandes...

Não sei de frase mais verdadeira. Eu andava nos últimos preparatórios quando êle aqui chegou, formado de São Paulo, e posso afirmar-vos que ninguém, tão môço, ainda passou por estas ruas envolto de tão admirativa curiosidade.

A sua entrada nesta capital foi a de um triunfador e em poucos dias não houve quem lhe não conhecesse a figura de irrivalizável elegância e o rosto escultural velado de palidez fidalga e aclarado por um olhar que todo êle era o reflexo dos esplendores máximos da vida.

Foi, porém, o mais breve dos triunfos. Não que o escritor diminuísse o engenho, senão porque o surpreendeu um período anônimo da existência política. O quatriênio de 1886-1890 foi decisivo para os destinos do Brasil, tão de golpe nêle se afrouxou a coesão nossos costumes e num desejo desapoderado de novidades desadoramos muitos velhos atributos, que imaginávamos retrógrados e eram apenas conservadores.

Aqui se me antolha digressão acidentadíssima. Evito-a. Mas no adstringir-me ao assunto, aponto, a correr, esta antinomia: precisamente quando a peregrina palavra “evolução” se tornou a rima fácil de todos os versos, rompemos com esta lei fundamental da história – tão bem expressa na continuidade de esforços dos estados sociais sucedendo-se com um determinismo progressivo – e apresentamos o quadro de uma desordem intelectual que, depois de refletir-se no disparatado de não sei quantas filosofias decoradas, nos impôs, na ordem política, a mais funesta dispersão de idéias, levando-nos, aos saltos e ao acaso, do artificialismo da monarquia constitucional para a ilusão metafísica da soberania do povo ou para os exageros da ditadura científica; ao mesmo passo que na ordem artística íamos dos desfalecimentos de um romantismo murcho, às demasias de um falso realismo, que era a pior das idealizações, porque era a idealização dos aspectos inferiores da nossa natureza.

Para ainda engravecer a crise, os dois ideais da abolição e da República não requeriam mais as emoções estéticas. Resolvidos na ordem moral, estavam entregues à ação quase mecânica dos propagandistas. Êstes precipitavam-nos com o desalinho característico da fase revolucionária das doutrinas, em que se conchavam as idéias e os paralelepípedos das ruas, e os melhores argumentos desfecham no desmantêlo das barricadas investidas.

José do Patrocínio e Silva Jardim tomaram por algum tempo a frente da sociedade. Recordando êsse passado recente, o que vemos  ao primeiro lance, é aquêle mulato formidável ou aquela miniatura de Titão.

Ocupam a cena tôda. No próprio terreno vibrante da propaganda derivaram, por vêzes, ao segundo plano os vultos de maior destaque, desde o velho Saldanha Marinho, tão esquecido depois de morto, a Quintino Bocaiúva, meio esquecido em vida – e que no retrair-se hoje a um voluntário ostracismo e no andar tão despercebido pelas nossas ruas, atravancadas de notabilidades, lembra-me alguém que vai passando devagarinho para a História, deslembrado dos homens e da morte, confundindo-se a pouco e pouco com a sua própria estátua – uma bela estátua corretísima e errante, sem um pedestal que a imobilize e soerga acima da multidão em que se perde...

Mas não cedamos à fascinação do assunto. Observemos que em um tal meio não se compreende a existência de uma arte que é sempre o resultado de certa fixidez dos sentimenos gerais.

Valentim Magalhães, como outros muitos, foi, naturalmente, apagando-se, mais e mais, naquela movimentação precipitada. Além disto, morreu depois dos trinta anos; e neste país quem quer que se notabilize e ultrapasse aquêle marco, fora dos tablados da política, predestina-se ao suplício lento e indefinível de acompanhar em vida ao entêrro pobre da sua própria imortalidade.

Terminemos. Faltou sem dúvida a Valentim  Magalhães essa concentração intelectual que é o segrêdo dos gênios e dos medíocres: um espírito a dobrar-se, a revirar-se, desesperadamente, em alguns pensamentos exclusivos e impassível aos reagentes da vida exterior. Para êsses a amplitude das idéias, como a das espirais, explica-se por um giro indefinido em tôrno de si mesmas. Os seus cérebros deveriam circunvoluir em caracol. São os eternos distraídos, ou abstratos, vivendo fora da preocupação que os escraviza, ou da inspeção em que se isolam, com um automatismo de sonâmbulos. Nas conjunturas mais opostas, entre os ruídos e as luzes de um salão de baile, ou num funeral, lá lhes está girando e regirando, torcendo-se e destoercendo-se a idéia absorvente, conservada por esta misteriosa consciência obscura, que vela pèrpetuamente nas profundezas do nosso espírito, e à luz a qual – sem que o queiramos, sem que o entendamos, sem que o expliquemos – se filiam as mais altas concepções aos mais fugitivos e inapreciáveis incidentes. Então compreende-se  que do cair e um fruto apodrecido êles passem, de um salto no infinito, para a queda perpétua dos mundos; ou que das oscilações quase imperceptíveis da lâmpada suspensa de uma catedral, entrevistas num êxtase religioso, induzam, de improviso, as leis mecânicas do isocronismo do pêndulo. Na ordem estética recorde-se a horrível anedota de Talma: a soluçar, num desespêro, agarrado ao cadáver do filho, e estacando de súbito, ao ouvir pela primeira vez a voz interior e profunda de uma dor verdadeira, que era a sua própria dor, e estudando-a friamente, para a reprouzir, dias depois, intacta, no palco, diante dos espectadores assombrados; ou a pertinácia sôbre-humana de Flaubert, atravessando decênios a versar, a volver, a revolver, a corrigir, a mondar, e a remondar um assunto único, interminável...

Valentim Magalhães foi o avêsso dêsses homens. Repitamos: as condições do meio e o seu temperamento arrastaram-no demais para o mundo exterior e para a sua indescritível instabilidade. Êle entregou-se  de corpo e alma ao turbilhão sonoro e fulgurante da existência.

Foi o seu grande defeito, dizem.

Mas êste defeito – o seu maior defeito – é a mais bela imperfeição da nossa vida: o defeito de viver demais.

 
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